sábado, 10 de agosto de 2019

EMERGÊNCIA ENERGÉTICA



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   Portugal tem reservas de combustível para mais de 3 meses, disse o ministro Cabrita!


    O que tem a greve dos camionistas com isso?

 

   Será que os camiões sabem nadar e vão carregar "pitrol" aos "pitroleiros" mar adentro?


   Quando se tem uma profissão de risco e de responsabilidade, com um salário base baixo, não  poderá envelhecer nem estar doente, porque o que  irá receber, será a miséria que tanto jeito dá à Segurança Social, visto os "extras", serem apenas "complementos" que só existirão, enquanto o trabalhador render...


    Só não vê quem não quer, a manipulação terrorista que tem sido feita semanas a fio, pela comunicação social e só não percebe quem não quer, a promiscuidade que tem unido os nossos sucessivos governantes ao patronato mais abastado, como se verifica em relação à poluição causada pelas celuloses, ou com as empresas de exploração mineira, na sua grande parte estrangeiras e outras tantas empresas que nem vale a pena mencionar, mas que continuam a explorar alegremente a precariedade dos seus funcionários, enquanto os impostos sobre os lucros, não são pagos cá dentro. 



  A honestidade, o compadrio e a total falta de transparência, são o cancro que ao longo dos anos, tem corroído os alicerces deste país, com o seu povo violado a cada passo sem escolhas, união, dignidade e força para exigirem os seus direitos e quando finalmente o conseguem fazer, as Forças de Segurança estão a postos e neste caso dos camionistas, até o exército virá, não só para os pressionar, como até substituir sem a devida experiência e formação para tal!


  Os camionistas conseguiram, ao fim de mais de 20 anos de marasmo, fizeram ouvir as suas vozes e independentemente de qualquer argumento, não consigo deixar de os admirar, mas quando vejo o drama orquestrado por um governo para quem o voto interessa mais que a ética e que tudo fez para que o país entrasse no caos, incitando à violência e ao açambarcamento ilegal, sinto-me assustada e penso que afinal, há uma perigosa trupe de incendiários, cuja palavra consegue incendiar ódios e explorar da forma mais repugnante e imoral, os sentimentos egocêntricos mais básicos de um povo, para dele obterem dividendos! 


  Qualquer greve é lesiva a alguém, ou a alguns, mas em nenhuma das que aconteceram até hoje, se verificou o circo e o oportunismo feito a estes profissionais que ao contrário dos enfermeiros, a quem não foram decretados 100% de serviços mínimos, não irão ser pagos durante os dias de luta,  pelo que a sua duração, nunca poderá ser longa e os ministros poderão enfim ir de férias  descansados, porque se estiverem doentes, vão ao privado e sempre terão um bom cargo à espera, quando deixarem os seus ministérios. 


quarta-feira, 3 de julho de 2019

OS GALGOS NÃO SÃO CãES




      AFINAL  OS GALGOS NÃO SÃO CÃES!



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   Conseguiu-se finalmente em Portugal, uma legislação que defende alguns animais e permite que se explorem outros, porque pelos vistos, tal como acontece com o povo desta terra, nem todos merecem ser bem tratados!

  "O cão é o melhor amigo do homem", mas não é assim que pensam alguns deputados da nossa Assembleia e por incrível que pareça, são sempre os mesmos carrascos insensíveis, cujos interesses pessoais se sobrepõem às leis e à visão honesta de certas situações condenáveis, sujas e mais que evidentes. 
   Sempre me pareceu que um Galgo era um cão com necessidades semelhantes a qualquer outro, cuja constituição física tem limites, mas cujo  abuso da sua resistência, lhes limita a saúde, o bem estar e a própria vida. 
  Quando um cão é abusado pelo seu detentor, chama-se a polícia, coisa que nesta terra de impunidades pouco resolve na maior parte dos casos, mas para certas classes altas, amigas do poder e cujas responsabilidades se perderam no lodo da corrupção e do compadrio, os Galgos não são cães, mas sim objectos úteis à especulação das apostas ilegais e dos interesses de minorias abastadas, interesseiras e das já bem conhecidas e frequentes trocas de favores.
  No secretismo dos "clubes"de caça que agora também viram o proveitoso furo de treinarem cães para corridas, vale tudo, mas se os ditos "atletas", não cumprirem os objectivos, não aguentando os choques eléctricos, drogas e todas as "técnicas" desumanas de que são alvos, deixam de prestar e tornam-se pouco  rentáveis, tal como acontece aos mais "incompetentes"das matilhas de caça que por aí se vão encontrando mortos, ou espalhados a monte por terras de ninguém. 


   Assim funcionam os "representantes" de um povo amorfo, analfabeto e alheio a tudo o que não sejam os seus umbigos, mas que ao contrário dos cães, faz gosto nos treinos a que o sujeitam!

  Assim se compôs, com a colaboração deste  povo cego e domesticado, a tal Casa da "Democracia" que há muito exige reforma e assim perduram e sobrevivem os dinossauros que dão lustro a certas bancadas,  espoliando os nossos já parcos recursos e enxovalhando descaradamente, toda uma nação! 
   

quinta-feira, 16 de maio de 2019

GUINÉ BISSAU


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   Ai, Guiné!





  Sol ardente em terra vermelha,
  Gente morena vestida de cor,
  Escravos de outros e filhos que partem,
  Bajuda descalça de ilusões perdidas...

  Ai, Guiné!
  
  Bissau, Gabu, Bafatá e Bolama.
  Mar azul e Bijagós...
  Tabanca cheia, barrigas vazias,
  Menino nas costas e rostos cansados
  Mulheres mães e olhos tristes,
  Velhice precoce, infância esquecida!

    Ai, Guiné!

   Mercados, barulho, manga e mancarra,
   Corás ao ritmo lento das memórias
   E teu povo no coração...

    Ai, Guiné!

   Magia escondida, saudade que mata...

    

quarta-feira, 13 de março de 2019

ÉTICA E AUDIÊNCIAS

   


    Sempre achei que os cravos de uma certa "revolução" serviram de pouco, porque continuou a desigualdade, a injustiça, a corrupção e a propositada cegueira de um Estado que prega valores atraiçoando-os despudoradamente a cada passo...



 






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   Por mais triste que seja, esta é a sina que nos resta por sermos obedientes, comodistas, inseguros e nada exigentes, quanto ao efectivo crescimento  intelectual e vanguardista que o passar dos tempos continuamente nos exigem.


   Em Portugal, a mulher comum, continua a ser o objecto negociável, traída nos seus direitos e dignidade, escrava de trabalho árduo mal pago e mola essencial à construção de uma economia que apesar de anémica, continua enriquecendo alguns, mas passando sucessivamente ao lado de quem dá o seu suor pelo pão de cada dia. 


    A cultura, a informação, o raciocínio e a acção, são as maiores ameaças para certas sociedades arcaicas que ainda fazem questão de dominar  através de falsas retóricas moralistas, ou até religiosas, com a adequada conivência dos midia, cuja disfarçada manipulação, é a arma inequívoca e fundamental para tais projectos de controlo e supremacia  machistas. 


    Não é portanto de admirar que após a explosão das contestações no dia da Mulher, tivessem surgido logo, certos programas abjectos nos dois canais mais populares da nossa televisão que infestam, desacreditam e violam as mais justas reivindicações exigidas por quem lutou e se manifestou por todo o país, insurgindo-se contra uma justiça bolorenta que não responde, nem protege quem por ela implora. 


   As palavras e as tímidas presenças dos nossos governantes em certos eventos em prol da igualdade de género, são apenas mais uma das comédias tão politicamente correctas que apenas revelam o estado de abandono a que este povo tem sido votado ao longo dos anos, mas também a ignorância e a falta de interesse que nos torna vítimas e culpadas/os da nossa pacatez e do estado de dormência em que nos deixámos afundar.


    Constata-se assim que estes programas   indignos e ofensivos à dignidade feminina, não passam de manobras reaccionárias de suja humilhação, propositadamente lançados após o mais aguerrido 8 de Março que recordo em Portugal e que teve como rastilho as declarações homofóbicas de um juiz e a morte de 13 mulheres em pouco mais de dois meses.  



  Que tipo de gente se presta a estas actuações públicas, divertindo quem, inconscientemente ou por simples ignorância, contribui para os colocar no topo das audiências?



  Que tipo de comunicação social e de Entidade Reguladora  é esta que permitem que se arraste em praça pública a dignidade de quem não a tem, mas cujo evidente atraso cognitivo é assim  explorado e tão engenhosamente exposto?


   Quem são estes "machos" bouçais de trazer por casa que escolhem fêmeas como quem apalpa fruta no mercado e que mulheres são estas que se prestam a tão vergonhoso papel?




   Acaso as suas vaginas famintas passaram a comandar os seus cérebros ocos, ou acharão que por aparecerem no "boneco", se tornarão heróis e heroínas, cuja fama se perpetuará em revistas de wc? 



   Nascer mulher, é o privilégio de ser mãe, de educar o mundo com a nossa pegada firme,  transpondo os obstáculos com um sorriso, mesmo quando o caminho é árduo e incerto, mas sem nunca baixar a bandeira da dignidade e da força! 

    Jamais a obediência nos deverá derrubar, nem o pranto servir de desculpa ao enxovalho, apatia e resignação, porque ser mulher, é a determinação e o vigor que irrompem das nossas fragilidades, para que possamos seguir em frente com  respeito por nós próprias, a auto estima sem mossa, a consciência limpa e o orgulho de ser quem somos!



   

    


 
    

   

   

      

   




      

segunda-feira, 4 de março de 2019

FEMINISMO E IGUALDADE

                             Resultado de imagem para violencia domestica    

Tenho uma certa dificuldade em definir a palavra "feminismo", porque me parece    limitar-se apenas à defesa de um sexo, em detrimento do outro, contudo, a enorme desigualdade e descriminação que ao longo dos séculos, tem rotulado as mulheres de todo o mundo, como seres sem alma nem direitos, usadas e abusadas por ideologias retrógradas, imorais e injustas, talvez me façam unir forças a essas hostes "feministas", defendendo aquelas cuja voz calaram pela violência e o medo, obrigando-as apenas a subsistir num mar revolto de ameaças, dores e morte.


      As agressões físicas e as marcas por elas causadas, são o  que melhor denunciam o percurso de uma relação familiar ou amorosa, mas embora as cicatrizes persistam, mesmo que a memória as teime ressuscitar, em momentos do passado, ou ainda presentes, há um outro sofrimento mudo e latente, como uma braseira de fogo lento abanada por palavras cruéis e destruidoras que minam diariamente os alicerces de egos já de si frágeis e vulneráveis, decompondo e anulando sonhos, projectos e esperanças, num labirinto de sentimentos sem dia nem noite que culminam num fosso profundo e permanente, aligeirado por antidepressivos e químicos que apenas permitem dias iguais e noites em claro...


    A manipulação psicológica, é a mais difícil de definir e até entender, porque humilha, trai e engana, reduzindo a pó a lúcida percepção das realidades, da auto estima e do respeito, numa espiral de dúvidas e total anulação do ser.

   A violência psicológica é surda, sorrateira e perversa, porque domina e destrói lentamente, transformando seres lúcidos e inteligentes em marionetas movidas por fios invisíveis que dificilmente se quebram, mas cujas lembranças se vão enrolando num papel tão fino que rasga ao mais ténue estremeço. 


   A resignação é o que sobra a quem não quer, não pode, ou não consegue virar o jogo, mas que se enfrenta sem atenuantes nem medo, entendendo finalmente  que a sua anulação matou o amor, a cumplicidade e o seu próprio futuro. 


     Em Portugal, a violência doméstica, foi finalmente reconhecida, desmascarada e exposta, mas ela corre nas veias dos "marialvas" que usam a mulher como um objecto imprescindível ao seu conforto, heróica parideira sempre disponível aos seus desejos e trabalhadora sempre submissa e incansável 


     O Estado sempre se alheou aos dramas de uma sociedade que deveria proteger, porque a economia precisa de mão de obra barata, ao mesmo tempo que a protecção das agredidas dá despesa e abre os olhos às que se querem caladas, mas os tempos são de mudança, embora os guetos de ignorância teimem subsistir e se alimentem de um faz de conta abjecto que pouco já cola aos mais esclarecidos.


      Não podem haver segundas chances para quem maltrata e se a justiça falha, como tão bem sabemos, faça-se a justiça na rua, no voto, no dia a dia e sempre, porque nem a Bíblia, nem qualquer juiz farsante, nos poderão mais calar. 


     Eu lutei sozinha, quando era normal ser-se submissa e venci!

             

     


    


            



                                                                                                                                                   


domingo, 27 de janeiro de 2019

RACISMO?

          Em Portugal ninguém é racista!


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    A descriminação é de tal maneira rara que ninguém diria que fomos um país colonialista.       
   Os portugueses não distinguem cores nem credos, mas quem cá chega de outras bandas, bolsos vazios e de outra cor, recebe um "visto gold" para uma mansão de luxo forrada de plástico e chapas de zinco em qualquer gueto imundo de esgotos a céu aberto, até ao fim dos seus dias...
   Difícil será não ser explorado e mais ainda integrar-se numa sociedade que lhes coloca de imediato o rótulo de qualquer coisa serviçal ou nada lisonjeira, mesmo que a maior parte deles, apenas traga em mente a vã ilusão de uma vida pacífica, num país  melhor.
   
   O racismo é o vírus que muitos escondem, usando argumentos, deturpações e pontuais experiências daquilo que um dia presenciaram, ou simplesmente ouviram falar. 

  Há quem se vanglorie por não ser racista, mas não aceita sequer a hipótese de um dia poder vir a ter um neto mulato, ou reconhecer um filho negro, fruto de qualquer devaneio leviano e ocasional. 
  Há ainda quem não tenha ainda entendido que independentemente da cor da pele, ou da religião que professam, muitos já aqui nasceram, ou vivem e por isso, também têm direito ao protesto, já que directamente, ou não, contribuem como qualquer branco, para os avanços e retrocessos deste país.
   O racismo, mais direccionado para certas etnias e comunidades pouco instruídas, não deixa de ser igualmente alargado às classes sociais caucasianas mais desfavorecidas, mas se uns são aceites e até vistos de forma mais condescendente e por vezes  compassiva, aos outros, por diferença cromática, já se colocam ressalvas e até se sugere que voltem para as suas terras, mesmo que esta  aqui, seja mesmo a sua...

   Senti na pele o racismo, numa noite, quando regressava a casa das aulas em Bissau, onde fiz cooperação durante 2 anos.
  Fui abordada por um pequeno grupo de jovens que me chamaram "tuga", perseguindo-me e mandando-me insistentemente voltar para a minha terra.  
  A Guiné Bissau, já então independente, foi o meu primeiro passo em África e foi  com isso que os confrontei. 
  Falei-lhes de opressão, de igualdade e do nosso colonialismo, mas sobretudo da educação que foi o que lá me levou. 
   Falei-lhes também do meu país e de como tinha sido difícil cá viver e compreenderam que afinal a nossa diferença resumia-se a nada, embora esse nada, se resumisse a um simples tom de pele, mas  que me permitiu as oportunidades que eles nunca tiveram e que hoje verifico que nem os cravos de uma revolução, lhes conseguiu ainda dar.,. 
    Depois dessa noite, passei a ter companhia para casa com longas conversas que me permitem hoje dizer, com toda a certeza que não é o "hábito que faz o monge", ou melhor, não é a cor que nos diferencia, mas sim esse preconceito abjecto que nos afasta.

   Por incrível que pareça, não foi nem a cor, nem a pele branca que me fizeram regressar em pranto a esta que, apesar de ser a minha terra, sempre me fez sentir estrangeira, mas sim algo devastador que não escolhe raças nem credos e que dá pelo nome de Malária! 
   
   O racismo é um vírus que percorre o mundo e a falta de consciencialização das sociedades durante séculos de obscurantismo que persiste, mais ou menos explícito, mas que dificilmente se regenerá dessa injusta e aberrante maleita

   Para quê condenar ou defender forças policiais que agem munidos de escudos e armas, contra gente com ressentimentos antigos que expressam a revolta à marginalidade de que sempre foram vítimas, com pedras, contra bastões e balas de borracha?

   Não estarão também esses profissionais de farda, formatados por um sistema obscuro tão politicamente correcto que não admite que negros se manifestem, em terra de brancos?

    Que tipo de cultura, formação, oportunidades ou ambiente se tem dado às comunidades jovens negras, nascidas e criadas em Portugal?

   "Poucachinho", digo eu que trabalhei alguns anos em turmas de currículos alternativos,  frequentados na sua maioria por jovens negros. 
   Algum desses meus ex alunos conseguiram pelo menos concluir o 12º ano? 
    Não, porque era preciso entrar no mercado de trabalho depressa para que um salário miserável, os sustentasse e à família, nos bairros lamacentos e degradados onde vivem, mas também porque a escola, onde cedo enfrentaram as desigualdades, era de todos, menos deles...

    Disseram-me uma vez que sou branca por fora e negra por dentro e acredito que assim seja.
   Nasci numa família pouco harmoniosa, mas que se intitulava anti racista, embora hoje me aperceba que partiram deste mundo sem saberem que toda a vida partilharam uma ilusão desempoeirada, útil e oportuna, mas falsa nas práticas e lapsos do dia a dia... 

   O retrocesso verificado nos nossos tempos, é fruto de mentalidades tacanhas, egoístas e de um nacionalismo ridículo que não pode ser aceitável num mundo em convulsão em que as contradições, desigualdades sociais e económicas grassam de forma selvagem e imoral.   

  Somos apenas grãos de areia nas vastas dunas de um planeta que destruímos a cada passo, sem  enxergar que o mundo é de todos e que nem os muros, ou fronteiras que teimamos construir, ruirão com estrondo, perante qualquer sismo, convulsão ideológica, ou ordem universal...      

      
    

    

    
   

    

    
  
   

    

         

            
    

sábado, 29 de dezembro de 2018

SUZI

   A Suzi foi mais um exemplo da indiferença, da maldade e do desrespeito pela vida alheia que tão bem caracterizam a espécie humana.


A imagem pode conter: cão

   Apareceu na minha rua, magra, triste, desorientada e faminta em meados de 2012 e só por milagre não foi atropelada.


  Tinha sido entregue a uma idosa com Alzheimer, tão esquecida e abandonada quanto ela e apenas uns brasileiros que habitavam um anexo ali perto, lhe atiravam de vez em quando alguns restos de comida.

   Durante vários dias, tentei ganhar a sua confiança, mas a sua  agressividade era de tal forma evidente que me fazia desistir, até ao dia em que a fome a fez entrar no meu quintal, atrás de um prato de comida e fechei o portão, assim que a vi cá dentro. 

    Era quase impossível fazer-lhe uma festa, mas deu-se bem com os meus cães e isso foi a razão pela qual, achei que talvez com o tempo, ela viesse a confiar em mim e abandonasse aquele olhar triste que o tempo nunca mudou. 

    Mandei-a esterilizar, mas verificámos surpreendidos que após o corte, ela já não tinha órgãos reprodutores e que a cicatriz da anterior cirurgia, era de tal forma imperceptível que não foi sequer notada na hora de a abrirem de novo. 

    Adensava-se o mistério!

    Como e de onde teria vindo a Suzi e qual a razão de tanto medo?  

   Passaram-se alguns meses, até que alguém me contactou, mostrando-me um apelo com uma fotografia da Suzi no "Encontra-me". 


   Afinal havia um tutor preocupado que a procurava e talvez fosse essa a razão pela qual, ela me aceitava com tanta desconfiança!

  Respondi ao apelo, mas novamente a resposta foi insólita. 

  Quem colocou o anuncio, não foi nenhum tutor, mas sim a associação que entregara a Suzi a uma família que lhes pareceu de confiança, mas quando tentaram saber notícias, após várias tentativas sem respostas, souberam finalmente que ela tinha desaparecido.


   Após longa troca de explicações, falsas desculpas e declaradas mentiras dadas pelos adoptantes, decidi que não a entregava a mais ninguém, obtendo de imediato a concordância dos voluntários da associação que depois me relataram como a tinham encontrado na beira de uma estrada, com filhotes há cerca de um ano. 
  Recolheram-nos, cuidaram, deram os bebés e esterilizaram a Maia, nome que lhe tinham dado, até serem enganados por esses adoptantes que a descartaram sem pejo para casa da mãe idosa desse "dono" que não a quis, assim que verificou que ela não lhe servia para a caça.

   Este é o triste destino de grande parte dos cães usados e abusados pelos caçadores, mas se durante alguns meses, a Suzi parecia saudável e apenas evidenciava o medo de qualquer humano que dela se aproximasse, algo muito mais grave escondia, talvez dos tempos em que a terão mantido sem carinho nem condições, condenando-a depois ao abandono e até à morte, como acontece a tantos outros que não encontram quem os tire das ruas e lhes dê o respeito e a confiança que merecem. 


    Uma manhã, quando lhe abri a porta do anexo onde dormia com o amigo Fausto, percebi que estava desorientada, rejeitou a comida e deambulou pelo pátio até perder as forças e cair no chão em sofrimento. 

    Dirigimos-nos de imediato ao hospital veterinário, porque era domingo e ficou internada para exames. Não se percebia o porquê do seu estado que cada vez era mais grave, ao mesmo tempo que se tornava cada vez mais feroz, tentando atacar quem se aproximasse dela e sem me reconhecer. 

    Os veterinários suspeitaram de algo no cérebro que poderia ser muito grave, ou mesmo fatal. 
    Fez- se um tac que indicou uma mancha que sugeria um tumor, mas além disso, havia ainda uma marca no osso do maxilar que poderia ser uma sequela deixada por antigos golpes e maltrato.

    De volta, ao hospital, começou um tratamento difícil à base de cortisona e inesperadamente, ganhou o equilíbrio, voltou a comer bem e a melhorar dia após dia, contudo, a sua revolta e  comportamento agressivo manifestavam-se cada vez de forma mais ameaçadora, tanto para os profissionais que a cuidavam, como para mim, nas visitas diárias que lhe fazia. 


    Finalmente, descartada a possibilidade de um tumor, a hipótese de inflamação nas meninges ganhou força, já que o tratamento tinha sido direccionado para esse fim e ela se mostrava curada, podendo mesmo regressar a casa, sem mais medicação, mas o veterinário tinha receio dela e desse seu comportamento agressivo que dada a sua estatura e força, poderia colocar em risco tanto a nossa integridade física, como a dos outros animais residentes e sugeriu delicadamente a eutanásia, "pelo bem de todos". 

     Passei a noite em claro, mas no dia seguinte, apelei à minha coragem e fui buscá-la sozinha!
    Com todos os cuidados, de açaime, colar e duas trelas atadas a um gancho do carro para que não me atacasse no trajecto mais lento que alguma vez fiz e de olhos plasmados no retrovisor, não fosse ela saltar do banco de trás e atacar-me, chegámos a casa. 
     

    Ao ver o nosso portão, reparei que abanava a cauda pela primeira vez e entrou afoita. 
   Tinha fechado os outros cães anteriormente, mas deixei que o Fausto saísse para a receber. 

    A Suzi estava finalmente em casa, renovada e mais feliz que nunca!   

  Retirei-lhe o colar, soltei-lhe as trelas, deixei-os correr e por fim até o açaime saiu!

  Bem vinda a casa, querida Suzi, porque até as  carícias que sempre me negaste, passaste a  consentir, ao mesmo tempo que me pedes o beijinho de boa noite, plantado na pontinha do teu nariz frio e molhado!

   Tanto a doença, como o internamento ou o mal estar que sentia, despertaram-lhe velhas memórias de abandono, sofrimento e dor, mas tudo afinal lhe serviu definitivamente para que entendesse que jamais eu iria desistir dela e assim, aceitou confiante a nossa casa e a nossa família, como a sua...