domingo, 27 de janeiro de 2019

RACISMO?

          Em Portugal ninguém é racista!


Resultado de imagem para racismo e xenofobia



    A descriminação é de tal maneira rara que ninguém diria que fomos um país colonialista.       
   Os portugueses não distinguem cores nem credos, mas quem cá chega de outras bandas, bolsos vazios e de outra cor, recebe um "visto gold" para uma mansão de luxo forrada de plástico e chapas de zinco em qualquer gueto imundo de esgotos a céu aberto, até ao fim dos seus dias...
   Difícil será não ser explorado e mais ainda integrar-se numa sociedade que lhes coloca de imediato o rótulo de qualquer coisa serviçal ou nada lisonjeira, mesmo que a maior parte deles, apenas traga em mente a vã ilusão de uma vida pacífica, num país  melhor.
   
   O racismo é o vírus que muitos escondem, usando argumentos, deturpações e pontuais experiências daquilo que um dia presenciaram, ou simplesmente ouviram falar. 

  Há quem se vanglorie por não ser racista, mas não aceita sequer a hipótese de um dia poder vir a ter um neto mulato, ou reconhecer um filho negro, fruto de qualquer devaneio leviano e ocasional. 
  Há ainda quem não tenha ainda entendido que independentemente da cor da pele, ou da religião que professam, muitos já aqui nasceram, ou vivem e por isso, também têm direito ao protesto, já que directamente, ou não, contribuem como qualquer branco, para os avanços e retrocessos deste país.
   O racismo, mais direccionado para certas etnias e comunidades pouco instruídas, não deixa de ser igualmente alargado às classes sociais caucasianas mais desfavorecidas, mas se uns são aceites e até vistos de forma mais condescendente e por vezes  compassiva, aos outros, por diferença cromática, já se colocam ressalvas e até se sugere que voltem para as suas terras, mesmo que esta  aqui, seja mesmo a sua...

   Senti na pele o racismo, numa noite, quando regressava a casa das aulas em Bissau, onde fiz cooperação durante 2 anos.
  Fui abordada por um pequeno grupo de jovens que me chamaram "tuga", perseguindo-me e mandando-me insistentemente voltar para a minha terra.  
  A Guiné Bissau, já então independente, foi o meu primeiro passo em África e foi  com isso que os confrontei. 
  Falei-lhes de opressão, de igualdade e do nosso colonialismo, mas sobretudo da educação que foi o que lá me levou. 
   Falei-lhes também do meu país e de como tinha sido difícil cá viver e compreenderam que afinal a nossa diferença resumia-se a nada, embora esse nada, se resumisse a um simples tom de pele, mas  que me permitiu as oportunidades que eles nunca tiveram e que hoje verifico que nem os cravos de uma revolução, lhes conseguiu ainda dar.,. 
    Depois dessa noite, passei a ter companhia para casa com longas conversas que me permitem hoje dizer, com toda a certeza que não é o "hábito que faz o monge", ou melhor, não é a cor que nos diferencia, mas sim esse preconceito abjecto que nos afasta.

   Por incrível que pareça, não foi nem a cor, nem a pele branca que me fizeram regressar em pranto a esta que, apesar de ser a minha terra, sempre me fez sentir estrangeira, mas sim algo devastador que não escolhe raças nem credos e que dá pelo nome de Malária! 
   
   O racismo é um vírus que percorre o mundo e a falta de consciencialização das sociedades durante séculos de obscurantismo que persiste, mais ou menos explícito, mas que dificilmente se regenerá dessa injusta e aberrante maleita

   Para quê condenar ou defender forças policiais que agem munidos de escudos e armas, contra gente com ressentimentos antigos que expressam a revolta à marginalidade de que sempre foram vítimas, com pedras, contra bastões e balas de borracha?

   Não estarão também esses profissionais de farda, formatados por um sistema obscuro tão politicamente correcto que não admite que negros se manifestem, em terra de brancos?

    Que tipo de cultura, formação, oportunidades ou ambiente se tem dado às comunidades jovens negras, nascidas e criadas em Portugal?

   "Poucachinho", digo eu que trabalhei alguns anos em turmas de currículos alternativos,  frequentados na sua maioria por jovens negros. 
   Algum desses meus ex alunos conseguiram pelo menos concluir o 12º ano? 
    Não, porque era preciso entrar no mercado de trabalho depressa para que um salário miserável, os sustentasse e à família, nos bairros lamacentos e degradados onde vivem, mas também porque a escola, onde cedo enfrentaram as desigualdades, era de todos, menos deles...

    Disseram-me uma vez que sou branca por fora e negra por dentro e acredito que assim seja.
   Nasci numa família pouco harmoniosa, mas que se intitulava anti racista, embora hoje me aperceba que partiram deste mundo sem saberem que toda a vida partilharam uma ilusão desempoeirada, útil e oportuna, mas falsa nas práticas e lapsos do dia a dia... 

   O retrocesso verificado nos nossos tempos, é fruto de mentalidades tacanhas, egoístas e de um nacionalismo ridículo que não pode ser aceitável num mundo em convulsão em que as contradições, desigualdades sociais e económicas grassam de forma selvagem e imoral.   

  Somos apenas grãos de areia nas vastas dunas de um planeta que destruímos a cada passo, sem  enxergar que o mundo é de todos e que nem os muros, ou fronteiras que teimamos construir, ruirão com estrondo, perante qualquer sismo, convulsão ideológica, ou ordem universal...      

      
    

    

    
   

    

    
  
   

    

         

            
    

Sem comentários:

Enviar um comentário