sexta-feira, 11 de maio de 2018

EUTANÁSIA

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  Aos 20 anos trabalhei num hospital em Londres e fiz quase 3 anos de SEN (state enrolled nurse).

  Foi uma longa aventura da minha juventude, quando ser mulher era ainda ter que baixar a cabeça à opressão. 
   Aqui pagava-se para aprender enquanto lá, pagavam-nos para que aprendêssemos, em estágios e aulas semanais. 

   Foi numa dessas passagens pelas enfermarias de Geriatria que aprendi que a dignidade é o que nos resta, quando a vida perdeu sentido! 
    
    Quando a autonomia se perde e o olhar turvo deixa de ver o horizonte, é tempo de aguardar, ou de querer partir?

     Conheci num hospital de Londres, duas mulheres que aos meus 20 anos me souberam ensinar a tristeza de ficar e a coragem de partir!  

    A primeira, jazia há muito tempo imóvel, ferida, entubada e ligada a uma maquinaria infernal com um ruído monótono constante que apenas enxotava a morte que pairava pelo quarto, aguardando talvez uma brecha para se aproximar daquele corpo inerte e sugar-lhe finalmente a alma. Nunca vi que alguém a visitasse e a sua fisionomia revelava um mar de desilusão e desapego incomparáveis.  
    A segunda, já com muita idade, mas sempre lúcida, sofria a dor de uma perna gangrenada e as cada vez mais espaçadas visitas da família. 

   Os médicos convocaram então o seu único filho e anunciaram que ela só se salvaria se lhe amputassem a perna. 
   Não me recordo das palavras, nem das reacções à notícia, mas para que o procedimento cirúrgico pudesse avançar, era precisa uma assinatura de consentimento da paciente que neste caso, estava no pleno uso das suas faculdades mentais.

   Foi no momento em que a ouvi gemer um categórico NÃO que entendi que para aquela mulher, a esperança de uma vida com amor, dignidade e autonomia, tinha morrido durante os dias penosos que passara naquela cama de  hospital!
   
  Passados três ou quatro dias, no meu dia de folga, Mrs Beamish partiu sem que eu lhe agradecesse a mensagem de coragem e dignidade que inconscientemente me conseguiu transmitir. 
  

     EU SOU PELA EUTANÁSIA!
   

     
     

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